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Uma primeira série fechada

  • há 15 horas
  • 4 min de leitura

Do esquema à vida - uma série entre o geométrico e a pintura


Hoje fecho um capítulo do meu trabalho de atelier, o primeiro que sinto que posso fechar e que chegou a uma devida conclusão.


(E seguramente está afirmação vai morder-me no rabo daqui a uns meses quando decidir que afinal ainda quero adicionar algo mais!)


MAS… acredito que está na hora. Tenho tendência a manter muitas frentes em aberto e é altura de focar a minha atenção noutras ideias.


Principalmente porque esta é provavelmente a mais antiga e a que melhor representa a transição de vida que fiz durantes estes anos. Do esquema à vida, do meu mundo racional e organizado a uma nova vida: com mais cor, mais orgânica e fluída. Sem um percurso definido. Mas com muitos desafios.


E olhando para trás, esta série de trabalhos começou realmente em setembro de 2023, completamente sem a menor consciência de para onde iria.


Nas práticas de atelier foi-me sugerido um exercício que começava pela escolha de um lugar. Não foram dadas grandes restrições, apenas que fosse um espaço limitado mas não excessivamente pequeno, nem de certa forma conceptual. Que fosse um espaço físico. Pareceu-me uma forma particularmente útil de começar a minha prática artística porque me permitia basear em algo da realidade, ou seja, começar baseada em alguma coisa. Ajudou também a desenvolver o registo visual para aspetos que nos interessassem.


Registo fotográfico do lugar, a estação de comboios abandonada, Barreiro
Registo fotográfico do lugar, a estação de comboios abandonada, Barreiro

Escolhi a estação de comboios abandonada do Barreiro, junto ao rio. Para mim a mesma tinha aspetos arquitetónicos interessantes e a passagem do tempo implícita na degradação do edifício permitia explorar diferentes camadas conceptuais. O rio tem sido para mim também importante ao longo da vida, como momento de travessia entre a minha habitação e os diferentes locais de estudo e trabalho em Lisboa, pelo que era algo que também gostava de capturar.

Mas será que pensei tudo isso quando me ocorreu pela primeira vez a estação? Claro que não. Foi apenas uma curiosidade, uma atração para explorar algo. Depois mais tarde pude articular esses aspetos e entender as razões por detrás da escolha.

Na altura, era apenas guiada pela intuição. E uma das coisas que captou a minha atenção foi a luz. Estando a estação virada quase a oeste, recebia o pôr do sol pelas janelas e curiosamente também era possível do outro lado do edifício ver a luz a passar pelas janelas, quando espreitávamos por pequenos orifícios, como os próprios buracos das fechaduras.



Registos da luz no lugar
Registos da luz no lugar

São talvez das imagens que mais gosto deste lugar, mas no entanto ainda não foram das que enriqueceram trabalho posterior (até agora, pelo menos). De qualquer forma, guardo os registos como algo interessante para mais tarde ainda voltar a trabalhar. E suponho que a escrita deste texto é uma forma de manter para mim esta memória.

Interessou-me também fazer registos de detalhes arquitetónicos geométricos, círculos e padrões repetidos. Esses depois derivaram em esquemas geométricos em alguns casos. Este exercício foi fundamental para ganhar consciência de que me interessavam muito mais os detalhes do que a visão mais abrangente do edifício. De certa forma uma “aversão” ao ver o todo e uma vontade de focar pequenas “curiosidades”. Infeliz ou felizmente algumas dessas curiosidades são aspetos decorativos do edifício, que vão gerar um questionamento que ainda não tenho resolvido, sobre a “validade” desses no campo artístico e que papel têm no meu trabalho em particular. Mas deixarei essa questão para outra altura.


Registo de detalhes do lugar
Registo de detalhes do lugar

Voltando à questão do registo de detalhes, notei também um interesse em centrar também alguns desses elementos. De certa forma também uma escolha potencialmente polémica, apontada como pouco criativa e óbvia. Plana e sem interesse na opinião de alguns.


Mas tal era a frustração de não poder registar, por exemplo, o relógio de forma central, que a certa altura pensei arranjar um drone para o efeito. Um exagero, porque fui relembrada que podia muito bem fazer um esquema dos elementos – e assim fiz.

Registos geométricos da roseta e do relógio
Registos geométricos da roseta e do relógio

Estes desenhos geométricos são-me particularmente queridos porque deram origem a um par de pinturas às quais tenho imenso carinho. E que são efetivamente o ponto de partida para a série de trabalhos que se seguiu.


E aqui entra mais um daqueles momentos curiosos sobre a nossa mente e como a criatividade surge. Eu não me sentei a decidir que iria transformar estes esquemas em pinturas. Foi um clique. Devia estar a tentar dormir ou tomar duche, dois dos momentos mais produtivos para ideias novas… e simplesmente me veio à ideia o conceito e imagem da primeira pintura.


Detesto que isto se possa confundir com ideias como “tinha que existir” ou “foi o destino”. BAH… Não sou nada dessas coisas. Mas estupidamente muitas das minhas ideias novas nascem de momentos assim. Eu quero acreditar que nada mais é do que o nosso cérebro, em momentos de deriva natural, juntar conexões possíveis e trazê-las à consciência.


Construir, óleo sobre o verso da tela, 2024
Construir, óleo sobre o verso da tela, 2024

Porque depois destas pinturas estarem feitas, comecei a dar-me conta de quantas vezes fazia já no meu dia a dia registos similares. As flores da minha avó. Pequenos detalhes das plantas de casa. Outras pequenas rosetas ou detalhes arquitetónicos de quando fazia algum passeio. Já lá estava tudo, bem como o interesse em desmontar visualmente cada um destes registos e observar a geometria que os compõe.


E assim, um conjunto de momentos encadeados, desde o exercício do lugar, à escolha da estação e dos meus registos variados, fez nascer uma série que hoje declaro como terminada.


 
 
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