Porque pinto?
- há 15 horas
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Porquê pintura? Porquê óleo? Porquê tela? Porquê figura?
É fácil fazer exercícios.
Tens que fazer X, neste tamanho, com este tema.
Difícil é quando temos que ser nós a decidir o que fazer. Não só pelo desafio criativo, mas também, pelo menos para mim, porque têm que ter razão de existir.
Culpo a minha mente racional, que me assombra de certo modo desde a infância. Fez-me interessar pelas artes decorativas e artesanato porque de certa forma via função na sua existência. Mas não me satisfazia.
Porquê então decidi mergulhar na pintura a óleo? Porque decidi fazer trabalhos figurativos? Partilho as razões que justifico a mim mesma:
Aceitei que não era uma escolha racional. Que simplesmente fazia sentido, encaixou. Não diria no entanto que é emocional. Mas foi um aceitar do que o corpo dizia à sensação de trabalhar com pintura a óleo. Um clique que não tinha ocorrido antes com outra coisa. E que poderá no futuro ocorrer com outras.
Foi uma escolha pragmática a nível técnico, um caminho para começar a desbravar terreno. Há “regras” e tanto a nível de materiais como de mercado há uma facilidade que outras formas de trabalhar não têm de partida.
É comercialmente viável e fácil de divulgar em termos de registo visual e de compreensão do objeto pelo público.
Parece pouco romântico começar notas de atelier com preocupações práticas e comerciais. Mas de que serviria ocultar razões que tiveram peso nas minhas escolhas apenas para proteger uma imagem de pureza da prática artística? Todos nós temos ou sentimos limitações de natureza prática com as quais temos que lidar. Além disso, a ética é para mim um valor fundamental, pelo que se o primeiro ponto não existisse nunca os outros dois seriam relevantes… E se tivesse dúvidas de que trabalho com integridade nunca comentaria estas questões. Por isso fica a transparência e o pensamento de alguém que está a começar o seu percurso.
Em todo caso, para mim estas justificações não são de todo satisfatórias para responder à questão que coloco. A primeira é a que mais se aproxima e faz-me colocar uma hipótese: o corpo sabe antes que a mente e está relacionado com os nossos sentidos e sensibilidade em geral. E é isso que alimenta o trabalho que faço como artista, o estar atenta ao lado sensível que faz escolhas que ainda não compreendo totalmente, ou que pelo menos ainda não sou capaz de colocar por palavras.
Talvez por isso sinta também esta necessidade de colocar por escrito. Não como forma de desenvolver novo trabalho. Mas como forma de entender o trabalho que já fiz.
Suponho que será isto uma forma de retirar conhecimento da prática, de transformar em algo entendível aquilo que não é descoberto inicialmente com palavras.
Por isso, neste momento não tenho uma resposta definitiva. E quero que estas notas acompanhem o processo de tudo aquilo que vou desenvolver e talvez encontrar as respostas às questões que me apoquentam.

