Porque escrevo?
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Porquê refletir sobre a pintura?
Acho curioso como nos primeiros trabalhos que fiz consigo ver as sementes daquilo que vim a fazer depois. E acho que esta arqueologia é fundamental para vez após vez fazer sentido do meu próprio trabalho.
Como é curioso que de forma intuitiva apareçam temas ou interesses, ou sejam feitas escolhas, que dizem tanto sobre nós? E como podemos trazer esses aspetos à consciência?
É para isso que uso a escrita. Porque acredito que muito do que fazemos não está disponível no nosso cérebro consciente. E se dissesse isto à Sara de 2019, ela pensava que eu teria pirado de vez. Mas pela experiência tenho visto o quanto há saber e valor no subconsciente e na intuição. No entanto, só podemos tirar proveito desse valor se o conseguirmos trazer à consciência e pensar sobre ele.
Por isso, sim, escrever ajuda.
Não escrevo para recordar, nem para registar… Se assim fosse seguramente este não era o melhor formato. Escrevo para observar. Que coisas esconde o meu cérebro de mim mesma que preciso escavar para encontrar?
E seguramente teria valor fazê-lo num caderno, a ligação à escrita manual dizem ser relevante. Mas os pensamentos fogem com tanta rapidez que por vezes é difícil seguir e apontar tudo o que quero. O digital é mais rápido e também pesquisável, editável e fácil de reestruturar…
Enquanto escrevo este trecho, imagino o potencial leitor a dizer “mas que valor poderá tirar de escrever sobre escrever, se o valor em si seria rever a sua prática artística?”. Ora bem, esta coisa de pensar sobre pensar, metacognição, é super interessante para mim como tema em si mesmo. O próprio tema da intuição ter valor é algo que gostava de explorar.
Escrever permite-me regressar às imagens depois de feitas e perceber que escolhas, insistências e relações estavam já presentes antes de eu conseguir nomeá-las. E assim tentar dar-te sentido posterior.
